suzanne valadon, Lautrec

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Ensaio sobre o fim dos tempos

Cada um ensaia o próprio passo para além de onde pode pisar, para que não pise em falso. Claro que ninguém ensaia todos os passos e isso demonstra que às vezes as pernas caminham sozinhas. Intuição ou não isto é um fato. E outro fato é que as madrugadas são mais afetivas à escrita solta, mas incrivelmente o mundo funciona de dia. Droga, o sono e necessário aos meros mortais que tropeçam em si mesmos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Intermitência

Ser convicção para, no entanto, indagar-se da própria existência. Este é o princípio.
No precipício, talvez, seja divertido não existir, mas não se pode evitar. É inevitável, sem escolha.

Não importa as horas; o tempo continua fluindo. Não importa o q se faça, não há nada mais sábio do que pensar. Mas, a incapacidade assustadoramente rouba-nos a vontade e só resta nos roubar a capacidade de existir.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

A Barbie peluda me criou

Eu era a princesa loira
eu era a mais bonita
eu era magra e bem-sucecida.

Tinha vestidos,
tinha amigas
tinha carro, casa e namorado.

Mas a boneca de pelúcia de cachorro
era gorda e peluda
e ela ia no circo
e ela tinha duas orelhas
e eu costurei o olho
e ela era travesseiro
e eu mordia
eu girava no chapeleiro maluco
e ela dormia comigo.

A Barbie que eu fui
perdeu o brinco
perdeu a orelha
O cabelo até ficou duro
mas tinha olho tão bonito!

Da Lili eu costurei o olho
guardei no armário.

A Barbie eu dei,
era fria.

O plástico era duro,
mas ela sorria.
A Lili era grande,
era amiga.

Eu sou mais peluda,
por causa da Lili.
Mas se fosse Barbie,
nem parava em pé!

Não tenho carro, nem casa nem Barbie.
Mas ainda tenho a Lili.
E to toda costurada que nem ela.
A Lili foi mais minha Barbie
do que a Barbie foi minha.

Com a Lili eu dava abraços
com a Barbie eu tentava ser quem eu não era.

Pestilento II

Pensei que seria fácil comer aquele pãozinho com manteiga. Era só um pãozinho na manteiga! Mas o gosto do podre do fungo azul era bem desnecessário para a combinação chá com mel. Naquela manhã joguei pão fora. Os pássaros não aceitariam o salgado, ou aceitariam? Estava é com preguiça de ir até eles, e se viessem a mim enxotaria porque uma pessoa que não gosta de pássaros é como qualquer outra. Não gosto de livros também, e daí? Não gosto de bolacha recheada como de ideologias inúteis que teorizam pessoas vazias.

Naquela manhã eu teria que trabalhar, mas era doce saber que chovia e que fazia frio e que as canelas não andariam porque estariam congeladas. Um telefonema anunciando falta de pernas justificaria ausência, certo? “Onde você foi para que estivesse com pernas congeladas?” No inferno, porra! Será que não percebem que não gosto também de justificativas?

Gosto de sossego, aquele do sofá e televisão ligada. Gosto de pizza quentinha, cheia de cebola torrada. Gosto da várzea da neblina, que envolve a preguiça e me dá apatia do não-movimento...

São três da madrugada... não sei o que faço aqui em frente a essa tela.

Do Pestilento

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

risco

Clarice Lispector

"a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena"

quarta-feira, 29 de julho de 2009

muito obrigada

O poeta dentro de mim tirou longas férias e não disse pra onde foi. Deve ter se jogado em alguns ares por aí, voando por cima dos oceanos que nunca vi. Deve ter se cansado dos meus rebanhos sem sentidos, de uma falta de clareza de seu destino. Na real nunca parei pra trocar idéia com ele. Só o tinha sentado, fumando charuto e observando os poucos da tabacaria. Meu poeta estava sempre mergulhado dentro de um universo de papéis de diversas origens e tintas amassados e rejeitados... Meu poeta teve muitas amantes e foi feliz com várias. Mas no seu quarto o lençol ficava sempre vazio e também ameaçava deixar o colchão. Os montes de sua poesia cobriam todo o lixo de madeira e derramavam pelo chão, ultrapassando o batente da porta. A cortina azul-escura sempre aberta o convidava a sair, nos poucos momentos que ele conseguia respirar. Mas ele não está mais aqui comigo. Sabe-se lá onde foi... Foram pouco mais de 20 anos de intensa companhia e ele se foi, sem rimas babacas nem um tchau dramático. O último bilhete que ele me deixou foi algo sobre metáforas, que são um exagero pras coisas pífias que minha mente inventa. Pena, nem um muito obrigada pude lhe dizer.

domingo, 14 de junho de 2009

Festinha Feliz ou Festinha, mas ordinária.

Surpresa. Às crianças restam as músicas entorpecentes e as palmas de coordenação motora. "Feliz aniversário", alguns balbuciaram, gritaram, lembraram. Mas, aquele pequeno mais velho estava no canto central da mesa, paquerando o bolo. Tenso. Todos os pequenos se entreolhavam belicosos. Acabaram os pequenos doces em cima da mesa e às crianças sobraram migalhas de açúcar, além, é claro, do grande edifício de chocolate recheado com doce-de-leite sob a vigilância de quatro grandes cerejas em moscatel por cima.

As luzes se apagaram. Uma grande vela se acendeu, como se queimasse a fio cada segundo de ansiedade de cada um ali. Incrivelmente todos os pirralhos ficaram em silêncio. Nenhuma da pessoas grandes se tocou e percebeu que aquilo era anormal. Palmas mecânicas e sorrisos ferozes. O garoto a quem o desejo do primeiro pedaço pertencia ameaçou encostar o Pai de Todos... ZÁS. A mulher de vestido de bolinhas vermelhas deu mais uma ordem chata, desviando suas mãos em palmas à palma da bunda do filho. O inferno. O garoto se recusou a soprar a velinha. A garota do lado chutou-lhe a canela em protesto. Mal ele abriu o berreiro, três moleques atacaram o bolo com seus caninos famintos de gente precoce atacada. As cerejas rolaram para fora da mesa.

Que massada, disse o garoto embaixo da mesa, lambuzando a chuteira nova com as cerejas. E jamais quis saber de receber "feliz aniversário" novamente.

terça-feira, 2 de junho de 2009

uma grande piada

O GORDINHO E A MADAME

No meio do trânsito de São Paulo, só pra variar um puta engarrafamento, uma Mercedes com uma madame, de motorista particular, e um fusquinha 72 com um gordinho suando pra caralho com a barba por fazer estão lado a lado.
O gordinho grita, xinga, buzina, faz um escarcéu por causa do trânsito até que a senhora do Mercedes abaixa o vidro e diz:

- "A paciência é a mais nobre e gentil das virtudes!" Shakespeare, em Macbeth.

O gordinho não deixa barato:
- "Vai tomar no cu!" Nelson Rodrigues, em A Vida Como Ela É.

sábado, 16 de maio de 2009

garoto enxaqueca

Feliz outono.

terça-feira, 5 de maio de 2009

A pomba

Estava andando de bicicleta de madrugada quando vejo um cão entretido com alguma carniça. Logo, eu abaixo a velocidade para não atropelá-lo. Ele, apaixonado pelos miolos podres da pomba que horas antes haviam grudado no asfalto, saiu correndo num átimo, como se estivesse a fazer algo errado. Tentei chamá-lo, docente, com o intuito de explicar que eu entendia a sua fome e seu desespero naquele faro e gosto putrefato... Mas, meu chamado de nada adiantou e o cão saiu encolhido, partindo pela diagonal em direção a calçada. Sem querer, atrapalhei sua janta. A pomba, ou o que restava dela, continuou a decorar o negrume da rua... Se não fosse por mim e por minha bicicleta haveria apenas uma frágil ossada e um montinho de penas com algumas lêndias e piolhos. Jaz ali, alguns órgãos, ainda.